domingo, 18 de julho de 2010

Você se lembra? Ou nunca ouviu falar?

Será que alguém ainda se lembra de Lygia Maria Lessa Bastos? Pois eu encontrei uma entrevista que ela deu ao site “Gente em Foco” e que foi publicada em 29/06/2003. A entrevista foi dada a Lou Micaldas, professora, formada pelo Instituto de Educação, e jornalista, criada e formada no Jornal do Brasil.


Sempre fiz uma oposição forte, mas era construtiva. Eu dizia: você está errado por isso, assim, assim... e o caminho é esse assim, assim...Tive essa formação. A gente fazia oposição aos atos do governo e havia muito material para se fazer a oposição. Éramos contra a ditadura Vargas.

Lygia Maria Lessa Bastos
LOU: Foram quase 10 anos de ditadura...
LYGIA: O Getúlio era popular. Ele ganharia a eleição. Não sei, até hoje, não entendi por que ele ficou ditador por tanto tempo, equilibrando-se com os comunistas e os da direita. Esquerda e direita. Era o Plínio Salgado, à direita, que comandava o partido, e do outro lado, o Prestes, no partido de esquerda. Em 47, foram eleitos 17 comunistas. Quando o Dutra ganhou, o Dutra fechou o partido comunista e eles ficaram na ilegalidade. Preferia que eles continuassem no legislativo.

Direita & Esquerda

LOU: E como foi sua convivência com os comunistas?
LYGIA: Eles foram vereadores comigo, por um ano. Nós nos demos muito bem. Os comunistas eram 17. Foi um mal eles fecharem o PCB. E nessa legislatura, que foi a primeira, os comunistas indicaram Aparício Torelli, que era um intelectual, inteligente, e Otávio Brandão, com uma cultura invejável. Os dois fizeram parte da Comissão de Educação. Foi o melhor período da legislatura em relação aos debates e decisões. Eles colaboravam bastante.
Tive oportunidade de votar com eles, contra a vontade de minha bancada, em relação à merenda escolar. Nesse período, eles votaram também projetos meus.

LOU: Você conheceu bem os bastidores da Presidência da República, na época do Jânio Quadros...
LYGIA: Eu era admiradora do Jânio Quadros, desde quando eu era vereadora e ele vereador também, por São Paulo. Nós nos conhecemos quando ele veio ao Rio.

LOU: Você ficou quanto tempo como vereadora?
LYGIA: Fiquei de 47 até 60. Ganhei 10 mandatos seguidos. Fui sendo reeleita, sendo que eu fui eleita pelo Distrito Federal. Mas depois, com a mudança da capital para Brasília, em 21 de abril de 1960, a cidade do Rio de Janeiro tornou-se o estado da Guanabara, de 1960 a 1975. Aí, fui Constituinte da Guanabara e depois, a partir de março de 1975, com a fusão dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, fui Deputada do Rio de Janeiro. E, finalmente, acabei como Deputada Federal.
Nas duas últimas legislaturas de 75 a 82, fiquei na Câmara dos Deputados, em Brasília, na ARENA, pois os partidos haviam sido extintos e só restaram dois. O outro era o MDB.

LOU: Eram 300 e tantos homens e você a única mulher?
LYGIA: A única mulher na primeira legislatura, de 75 a 78. Em 78, viajei a quatro estados e consegui levar mais três eleitas. No meu último mandato, em 82, quando o abandonei, entraram oito. A coisa foi melhorando. Hoje em dia é muito fácil ser candidato, embora se gaste muito dinheiro. Naquela época não. O que valia era mais o prestígio, eram os amigos, os parentes que trabalhavam. Hoje em dia, já entrou a corrupção. Estamos sentindo isso, acompanhando na televisão, vendo os históricos e as prestações de contas.

L0U: Como foi isso?
LYGIA: Tudo veio um pouco antes, veio de 82, quando acabou o que eles chamam a ditadura militar. Que eu acho que não houve... Depois que saiu o Figueiredo, que foi o último militar que ocupou a Presidência da República, quando acabou essa etapa, o que veio foi uma ditadura civil, que durou oito anos, pior do que todo o tempo da ditadura militar.

LOU: Mas, voltando aos bastidores do governo Jânio Quadros.
LYGIA: Fui honrada com um convite pra fazer um estudo da reforma política, porque ele sabia o que eu pensava e ele disse assim: "Lygia, começa a pensar nisso". E nós ficávamos o fim de semana lá e eu ia procurar pessoas da comissão de economia e finanças para esclarecimentos necessários. Eu não era técnica nesse assunto. A minha especialidade é educacional. Mas na parte política eu entendia muito, porque fundei um partido, fui secretária e tesoureira do partido nas piores horas das dificuldades partidárias. Naquela época, fui da direção. Depois, eu só fiz parte da comissão diretora e, naturalmente, da Federação toda. Em Brasília, fui a única mulher que pertenceu à comissão executiva. Enquanto eu estive lá, de 75 a 82, não houve torturas. Muito pelo contrário. Muita gente da oposição conseguiu realizar muitas obras e votar com o governo. Enquanto eu, numa ocasião, votei contra o governo apesar deles fazerem apelo na Reforma do Judiciário. Eu fui contra o caso dos cartórios e votei contra por convicção.

LOU: O caso dos cartórios era aquela pouca vergonha de serem hereditários?
LYGIA: Era. Os cartórios eram hereditários. E eu, aqui do Rio, na Constituição da Guanabara, votei a favor da emenda que acabava com esse privilégio. A mensagem do Governo da Arena, incluindo isso, me obrigou a votar contra e ser coerente.

Jânio Não Renunciou

LOU: Você estava me dizendo que Jânio Quadros não renunciou, que foi deposto. Você acha que ele foi deposto por causa da reforma política que ele queria fazer?
LYGIA: Está tudo no meu discurso. Está nos anais da época. Ninguém desmentiu. Ele foi deposto pelo General Cordeiro de Farias. Os dois ministros, Pedroso Horta e Afonso Arinos, entraram num acordo e ele aí teve que ir frente às câmeras e ler um documento. O povo todo viu quando ele foi levado para Cumbicas, com dois soldados, de fuzil em punho, ao lado do carro.
Então ele não saiu espontaneamente. Quando nós mandamos o trabalho da reforma pra ele, ele telefonou, dizendo: "magnífico!". Aí eu fiquei aguardando. Não sabia quando ele iria fazer a reforma. Acontece que o Carlos Lacerda precisou ir a Brasília. Ele era o Governador do Estado da Guanabara; ele foi eleito em 60.

A Tribuna da Imprensa começou a fracassar porque ele deixou a direção com o filho dele, um rapaz inteligente, mas não era experiente, não era um jornalista como era o Carlos.
Então ele foi falar com o Jânio que a Tribuna estava falindo. E o Jânio disse a ele que isso era uma gota d'água no oceano, porque isso não era nada, perto do que ele tinha que fazer e não podia. Então, em dado momento, o Jânio disse para o Carlos: "A gente só pode legislar e fazer alguma coisa aqui se fechar o Congresso. Tem que haver uma mudança política pra se fazer essa reforma. Porque, caso contrário, não se consegue nada. Não se vota nada em benefício do povo".

E, no fim da conversa, quando o Carlos perguntou "onde que eu vou dormir?" O Jânio disse assim: "O Hotel Nacional já está com reserva pra você".

Consta, eu não posso provar isto, que Carlos Lacerda não gostou de não permanecer no Palácio, de ter que ir pra um hotel. Mais tarde, o Ministro Pedroso Horta foi procurá-lo no hotel para dar uma satisfação. E o Carlos Lacerda falou para o Pedroso Horta, que não gostou de ser recebido assim e voltou para o Rio.

De madrugada, Carlos Lacerda entrou no ar, declarando que o Jânio ia fechar o Congresso. E, aí, então o General Cordeiro de Farias, naturalmente, foi acionado, eu calculo, também não posso provar.

Mas eu pergunto: como é que às 2 horas da manhã, o General Cordeiro toma conhecimento e de manhã cedo chega a Brasília de avião, reúne os três ministros militares do Jânio e vai ao Palácio e pergunta ao Jânio: "O senhor vai fechar o Congresso?"
E o Jânio: "General, o senhor está preso".
Aí o General Cordeiro de Farias virou-se para ele, na frente dos três ministros militares, e disse:
"E o senhor está deposto"!
Aí, o Jânio perguntou aos ministros:
"Eu estou deposto, ou ele está preso?"
E os ministros abaixaram a cabeça.

Essa é a história que foi contada, eu não tenho prova. Mas conversei com o Jânio. Eu fui dentro do navio, quando ele voltava, porque, na ida, eu não pude entrar. Conforme todo mundo sabe, o navio ficou em alto-mar.

Esperei. Mandei meu discurso, dizendo que ele foi deposto, mas não tive resposta. Quando eu soube que ele estava voltando, fui vê-lo. Entrei com um coronel e o meu primo, Decio Lessa Bastos.

Jânio me abraçou e disse: "Lygia Lessa Bastos, não adianta você dizer que eu fui deposto! Porque eu li na televisão, em frente às câmeras, que eu estava renunciando pra evitar um mal maior. Você assistiu tudo pela televisão. Eu li o seu discurso, mas não posso dizer nada."




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