sábado, 15 de outubro de 2011

A Marinha sempre fez história no Brasil

Tudo começou com um post que escrevi em abril sobre o famoso galeão chamado Padre Eterno. Ontem, recebi um email de um jornalista de São Paulo, me pedindo mais informações sobre o post. Depois de trocarmos mais um email, o jornalista Neldson Marcolin, editor chefe da revista da FAPESP, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, enviou-me o link para uma matéria feita por ele, também ligada à nossa Marinha, que me deixou encantada. Até porque eu desconhecia esta história. Acredito que pouca gente a conhece e, por isso, compartilho-a com vocês.

Como sou fã declarada de história, saí internet afora, pesquisando um pouco mais sobre o engenheiro naval Trajano Augusto de Carvalho. Além de tudo o que está publicado na pesquisa feita pelo jornalista, encontrei alguns detalhes não-técnicos, pois a revista se detém na ciência e tecnologia.

O texto abaixo foi publicado integralmente no site Galeria de Inventores Brasileiros.


Trajano Augusto de Carvalho
Invenção sem depósito de Patente no INPI
Obtida a licença do sistema, Trajano patenteou seu invento em diversos países, enquanto o novo tipo de carena era experimentado aqui no Brasil, por iniciativa e insistência do engenheiro Napoleão Level, o primeiro engenheiro naval brasileiro. Carena é a parte do casco dos navios que fica submersa. O sistema foi experimentado primeiramente em uma lancha a vapor e depois na corveta Trajano. A corveta Trajano foi construída pelo Arsenal de Marinha da Corte (o atual Arsenal de Marinha na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro), em sua fase áurea, quando aproximou-se dos estaleiros mais avançados do mundo à sua época. Media 64 metros de comprimento, era armada com sete canhões e máquina de fabricação inglesa, tendo sido lançada ao mar em junho de 1873. Os resultados dessas experiências foram muito bons, principalmente a prova de mar da Trajano, uma longa viagem do Rio de Janeiro a Montevidéu, em que ficou demonstrado que o novo formato de carena permitia maior velocidade, menor consumo de combustível e grande facilidade de governo e de manobra. A carena Trajano foi ainda adotada no Guanabara, na Parahyba, na galeota imperial, nos navios mercantes Rio de Janeiro e Rio Grande e no pequeno cruzador Caçador, para o serviço da Alfândega, tendo sido empregada também em alguns navios construídos na Inglaterra.


A Corveta Trajano
É de muito admirar, e de se lastimar também, que esse importante invento, que proporcionava uma economia de combustível da ordem de 30%, conforme atestado em experiências feitas na Inglaterra, pelo engenheiro Froude, o pai da hidrodinâmica aplicada aos navios, não tenha mais sido empregada nas novas construções, acabando por cair no esquecimento. Como observa o Comandante Porto e Albuquerque, o invento do engenheiro Trajano foi uma "pesquisa séria em engenharia naval", que pela sua própria natureza deve ter exigido um longo e paciente trabalho de pesquisa e de sucessivas experiências. Foi também um dos primeiros trabalhos de pesquisa tecnológica, em qualquer ramo da engenharia, realizado no Brasil, e certamente o primeiro que teve repercussão no exterior. O engenheiro Pedro Carlos da Silva Telles, autor de vários livros sobre a história da engenharia naval, comenta: "O engenheiro Vicente Sacchetti chama a atenção para o interessante fato de que as modernas proas dos navios gigantes da atualidade repetem quase exatamente, acreditamos que sem o saber, as linhas da carena Trajano, inventada por um brasileiro de 1869!" Um modelo reduzido da Trajano, dita como "construída de acordo com um sistema inteiramente novo, privilegiado na Inglaterra", figurou em destaque na Exposição Universal de Viena em 1873.

Trajano Augusto de Carvalho nasceu em 1830 na cidade de Desterro, atual Florianópolis (acho que disso também muita gente não sabe), e começou a vida profissional em 1848 como operário do Arsenal da Corte. Em 1853, pediu ao Governo para ser mandado à Europa estudar engenharia naval. Apesar da calorosa aprovação do engenheiro Level a esse pedido, Trajano de Carvalho só seguiu para Europa dois anos depois, para estudar e praticar nos estaleiros de Richard W. Hervy Green, em Londres, ao mesmo tempo em que fiscalizava a construção das canhoneiras Araguari e Belmonte, na Inglaterra e na França. Retornando ao Brasil em 1859, foi nomeado primeiro construtor do Arsenal da Bahia, onde ficou até o fim daquele ano, passando então ao Arsenal da Corte, no qual trabalhou até 1865. Naquele mesmo ano, foi mandado à Europa para fiscalizar a construção de dois encouraçados e voltou ao Arsenal da Corte em 1866.

Em 1869, foi novamente à Europa para fiscalizar a construção e receber os vapores Vassimon e Werneck, a cábrea flutuante Gafanhoto e as canhoneiras Henrique Dias e Felipe Camarão. De volta ao Brasil e ao Arsenal da Corte desenvolveu os estudos e experiências da carena Trajano, obtendo em 1870 licença para ir à Europa patentear seu invento. Depois de regressar ao Brasil, assumiu em 1872, a Diretoria de Construções Navais do Arsenal, em substituição ao engenheiro Level, que fora mandado à Europa. Trajano permaneceu nesse cargo até 1874, quando, a seu pedido, deixou o serviço da Marinha para trabalhar na indústria privada. Foi primeiro à Europa, por conta da Companhia Nacional de Navegação, fiscalizar a construção dos vapores Rio de Janeiro e Rio Grande, por ele projetados e depois trabalhou até 1889 no estaleiro Miers Irmãos & Maylor. Em 1890, organizou a Companhia Brasil Oriental e Diques Flutuantes, para explorar um novo sistema de dique flutuante de sua invenção, que infelizmente não foi avante. Mesmo depois de deixar a Marinha, o engenheiro Trajano continuou a dar-lhe sua colaboração em projetos, pareceres técnicos e inclusive, permitindo que a carena de sua invenção fosse empregada gratuitamente.

A carena Trajano foi privilegiada pelo governo inglês e mereceu elogios de Nathaniel Barnaby, construtor do almirantado inglês que assim se expressou em relação ao invento em 1870: "Parece extraordinário que no ponto em que nos achamos na história do mundo ainda fosse possível achar uma forma de navio capaz de ser traduzida em palavras que já não tenha sido privilegiada ou descrita nos arquivos da arte da construção naval. No entanto, até onde nos é possível ver, o sistema do Sr. Trajano possui este mérito. O objetivo do Sr. Trajano foi fazer 'desaparecer' a força que nos navios a hélice, tende a levantar a proa, o que ele propõe conseguir por meio de uma força na qual a ação sobre a água em todo o comprimento do casco torna-se completamente lateral".

Será que algum dos meus leitores sabia desse fato? É uma pena que nas escolas sequer mencionam o nome desse Brasileiro.



4 comentários:

  1. Parabéns pela publicação e por divulgar aspectos quase desconhecidos de um grande inventor brasileiro, ligado à Marinha do Brasil. Já compartilhei no Facebook e no Google+.

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  2. Oi Agostinho. Que bom que você gostou. Fiquei particularmente contente de saber que a FAPESP, uma entidade séria, tem feito este trabalho de resgate da história da tecnologia. Nesse ponto é inegável a contribuição da Marinha do Brasil desde seus primórdios para nossa, não velha, mas alquebrada pátria.

    Abraços,
    Eliane

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  3. Eliane sou oficial da marinha e estou trabalhando na implantacao do laboratorio de hidrodinamica da marinha, ja conhecia a historia do Eng Trajano de Carvalho, me envia um email acho que posso contribuir um pouco com a sua pesquisa

    andrericardopinheiro@gmail.com

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  4. Olá, André. Obrigada pela gentileza de oferecer sua contribuição. Hoje ainda envio um email pra você.

    Abraços,
    Eliane Bonotto

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Tô só de olho em você...
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