quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O Início De Uma História Notável

Hoje vou contar a primeira parte de uma história que é mais ou menos assim...
Depois que Estácio de Sá expulsou os franceses, a Cidade foi transferida para o Morro do Castelo, situado no atual bairro do Centro.
Agora vamos dar um grande salto no tempo e vamos parar no finalzinho do século XIX, pouco depois de “proclamada” a república no Brasil. Na virada do século, a Belle Époque estava efervescendo em Paris. Entramos no século XX, e um prefeito chamado Pereira Passos faz uma verdadeira revolução no Rio de Janeiro, transformando-o numa “Paris tropical”. Com as reformas de Pereira Passos, a cidade estava pronta para representar o Brasil e exibir toda a sua exuberância. A intenção era atrair o olhar estrangeiro, visando buscar libras e francos para consolidar, ainda mais, a independência. Então, em 1908, acontece a Exposição Nacional, realizada na Praia Vermelha, entre os morros da Babilônia e da Urca. Essa exposição pretendeu, além de comemorar o Centenário da Abertura dos Portos, mostrar para o mundo, a beleza e as qualidades da moderna capital da jovem República brasileira.
Nesta época, a revista Kosmos registrou a admiração geral da população: "Parece-nos ainda um sonho este inesperado aparecimento da pequenina cidade de palacetes nas areias da Urca. É a grandiosa Feira Nacional, que o presidente Affonso Penna organizou, sob o louvável pretexto de comemorar o Centenário da Abertura dos Portos do Brasil ao comércio mundial".
Contam os jornais da época que "em pouco tempo a Praia Vermelha transmudara-se por completo. Toda a área compreendida entre o fim da Rua General Severiano e o antigo edifício da Escola Militar, onde pouca coisa havia a divisar, além do vasto casarão do Hospício Nacional de Alienados e a deserta Praia da Saudade (onde hoje é o Iate Club do Rio de Janeiro), transformou-se, como por encanto, numa cidade, verdadeira fantasia de mil e uma noites". Montaram-se dois restaurantes, um teatro, cervejarias e café, além de uma pequena via férrea, para que o público pudesse locomover-se em trenzinhos. Vejam algumas das fotos da Exposição Nacional de 1908 na Urca.


A Exposição foi inaugurada dia 11 de agosto de 1908: "Às dez horas da noite começaram os fogos de artifício. Dezenas de foguetes subiram, iniciando-se a queima de fogos de maravilhoso efeito. Durante uma hora inteira foi uma sucessão de encantos intraduzíveis". Conta o historiador Brasil Gerson: “o que despertou maior admiração na exposição foi a multiplicidade das suas lâmpadas elétricas, num esplendor nunca visto pelos cariocas, e o cinema do pioneiro dos exibidores, Paschoal Segreto, que na sua tela da Urca surpreendeu o auditório com o primeiro documentário digno desse nome sobre o Rio, tirado do Pão de Açúcar, por Emilio Guimarães, que havia subido corajosamente como um alpinista com sua máquina ao ombro".

Ocupação da Urca
A área que hoje se conhece como o bairro da Urca foi criada entre 1910 e 1922, por meio de aterros, ao longo da orla voltada para a tranqüila enseada de Botafogo. No início, existiam, apenas, as águas da enseada que acompanhavam o costão do Morro da Urca em sua face oeste. Por ele passava um caminho que levava ao Forte São João e que hoje corresponde à avenida São Sebastião.
No fim do século XIX, o português Domingos Fernandes Pinto adquiriu uma pedreira escavada no Morro da Urca, onde só se podia chegar de barco. Depois, firmou com dois sócios um contrato com a Intendência Municipal para implantação de um cais no local. Foi feito um enrocamento com uma ponte precária na área do “Quadrado da Urca”, que é atualmente um lugar onde os pescadores deixam seus barcos flutuando nas águas de uma marina informal.
Em 1921, durante o governo do Prefeito Carlos Sampaio, foi concluído o “Quadrado da Urca”; inaugurada a avenida Portugal e aterrada a área cercada pela murada de granito ao longo da costa, até o portão do Forte São João. Nesta época foi feito, também, o atual arruamento.



Em 1926 tudo era tranquilidade nas águas artificiais da Praia do Hotel Balneário da Urca


Tudo era ingenuamente saudável nos anos 20 no Hotel Balneário da Urca

Até o banho de sol das crianças era tranquilo naquela década do século XX

O Hotel Balneário da Urca e o Cassino da Urca
Entre 1920 e 1923 foi criada, artificialmente, a Praia da Urca e erguido nela o Hotel Balneário da Urca. O Hotel, com 34 quartos, entrou em decadência nos anos 30 e, em 1933, foi transformado em hotel-cassinho.

Aqui o "The Very Beginning" do Hotel Balneário da Urca

Hotel Balneário da Urca em 1928

O empresário visionário Joaquim Rolla

Em 1934, o empresário Joaquim Rolla (o mesmo que, em 1941 abriu o Cassino Quitandinha em Petrópolis) comprou o cassino e transformou-o no Cassino Balneário da Urca, que, além de funcionar como um cassino, apresentava espetáculos, com grandes artistas nacionais e internacionais.

Cassino da Urca nos anos 40 com a fachada da praia não mais arrendondada e já quadrada.


Há 71 anos, a representante do Distrito Federal (RJ), Vânia Pinto, era eleita Miss Brasil de 1939, no Cassino da Urca.


Nilo Chagas, Dalva de Oliveira e Herivelton Martins no Trio de Ouro

Neste palco era comum a presença de grandes atrações internacionais como Bing Crosby, Toni Bennett, Amália Rodrigues, Carmen Miranda e Edith Piaf. Dos artistas nacionais tínhamos Virginia Lane, Grande Otelo, Emilinha Borba, Marlene, Linda Batista, Dircinha Batista, Heleninha Costa, e Dalva de Oliveira o crooner e pianista Dick Farney, com uma das vozes mais aveludada que conheci, entre muitos outros famosos. Eram tempos de glória para os artistas no Rio de Janeiro. A época coincidia com a “era de ouro do rádio”, principalmente da Rádio Nacional, e seus artistas apresentavam-se em espetáculos de nível internacional. Tudo era uma alegria só.

Carmen Miranda e o Bando da Lua eram atração especial no Cassino no final doas anos 30.

O Governo do Marechal Dutra
Então... Em 1946, no governo do Presidente Eurico Gaspar Dutra, aconteceu um fato inesperado. A primeira-dama, Carmela Leite Dutra, 30 anos, viúva de outro militar e com dois filhos, esposa em segundas núpcias do presidente da república, Marechal Eurico Gaspar Dutra, já ostentava o apelido que canonizou em vida essa feroz guardiã dos bons costumes, Dona Santinha. Nossa primeira-dama à época fez um pedido a seu marido. Comenta-se que, aliada à Igreja, Dona Santinha, que tinha uma grande “influência” sobre o marido (se é que me faço entender... rsrs), começou um lobby contra os badalados jogos de azar.

O presidente Eurico Dutra e a primeira-dama, Carmela Dutra, sua esposa a "Dona Santinha", para quem o marechal não negava os pedidos.


O "antro de pecados" de Dona Santinha trazia ao Cassino da Urca gente como Orson Welles, nesta foto de 1943.

Carmen Miranda fazia parte do flagelo que se fazia imperativo de um urgente saneamento social

Esses lugares luxuosos, “antros do pecado” para dona Santinha, atraíam, desde a década de 30, famosos e anônimos que queriam jogar, aparecer e ver shows de grandes nomes, como Carmen Miranda e Orlando Silva. Enquanto as mulheres exibiam seus vestidos caríssimos, os maridos jogavam suas fortunas nas mesas de jogo. A insistência de Dona Santinha ganhou a ajuda de uma série de reportagens de capa do jornal O Globo (sempre ele) em abril/1946, que, pela primeira vez, mostrou fotografias de um cassino funcionando, o Atlântico, em Copacabana (hoje ali funciona o Shopping Cassino Atlântico). Durante todo o mês de abril, O Globo escreveu, entre outras coisas, que a extinção daquele "flagelo" era um "imperativo urgente do saneamento social". As fotos foram feitas pelo fotógrafo Jean Manzon, de O Cruzeiro, mas o dono da revista, Assis Chateubriand, recusou-se a publicá-las. Manzon vendeu o material ao jornal carioca, desvendando o “inferno do jogo”. Isso produziu um escândalo tão grande quanto o que envolveu José Dirceu e seu assessor Waldomiro Diniz, que, para muita gente, foi o verdadeiro motivo encontrado pelo presidente Lula para fechar os bingos. E quem disse que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar? Como sua “influência” sobre o presidente Dutra era grande, o desejo foi atendido. Em 30 de abril de 1946, o decreto-lei 9215 fechou os cassinos de todo o Brasil. Quando foram proibidos, os cassinos eram mais de 70 no país, concentrados no Rio de Janeiro e em hotéis do sul de Minas Gerais, onde Getúlio Vargas costumava se hospedar. Isso sem contar que, dizem as más-línguas, o ex-presidente frequentava o Cassino da Urca para assistir aos shows de sua vedete preferida, Virgínia Lane.

Virgínia Lane, a vedete preferida de Getúlio Vargas, nos palcos do Cassino da Urca.
 

Os Anos Dourados da Urca
Joaquim Rolla, que era proprietário, além da Urca, também do Hotel Cassino Icaraí, em Niterói (atual sede da UFF), de hotéis-cassino em Araxá, Lambari e do Hotel Cassino Quitandinha em Petrópolis, entre outros, perdia o direito a explorar os jogos de azar, mas não os espetáculos e as boates. Isso porque o decreto não criava obstáculos ao funcionamento das diversões. Mas se a Urca e o Icaraí foram desativados, o mesmo não ocorreu com o Quitandinha, que continuou como hotel. Aliáis, sobre o Quitandinha, é importante registrar, como declara Carlos Machado, em suas memórias, que Rolla pretendia construí-lo na Praia Vermelha, aumentando o complexo de diversões na área da Urca. Vale lembrar a todos algo de que, geralmente, não se costuma falar. Sempre que o prédio do antigo hotel balneário mudava de mãos, passava por modificações flagrantes em sua planta, que criaram vários formatos, do abaulado ao quadrado.


Hotel Balneário da Urca pouco depois da sua inauguração nos anos 20. Notem a expansão do imóvel para as laterais, os toldos com estrutura metálica.
Na foto acima podemos observar que a parte que sofreu poucas modificações ao longo dos anos foi a que se encontra junto à encosta e o pergulato que atravessa a Av. João Luiz Alves. Essa parte do prédio mantém praticamente toda a decoração da fachada, como os capitéis das colunas e boa parte do gradeado de alvenaria no topo do pergulato, mesmo tendo ganhado um horroroso pavimento extra nos tempos da TV Tupi.
A foto mostra o balneário logo após sua inauguração nos anos 1920. O prédio junto à praia se mantinha no formato da inauguração, alinhado junto à grande pérgula sobre a avenida. O curioso é que já se pode ver o embrião da expansão do imóvel para as laterais, os toldos com estrutura metálica. Pouco depois, esses toldos foram transformados em duas alas de varandas, uma de cada lado da parte frontal do prédio, em madeira com grandes janelões, conforme pode-se observar na foto abaixo. Daí para expansão definitiva do prédio sobre a praia foi um pulo, até chegar ao seu formato atual.


Nesta foto já podemos ver as duas alas de varandas, uma de cada lado da parte frontal do prédio, em madeira com grandes janelões.

Na Praia Vermelha funcionou também desde os anos 40, na casa onde hoje se encontra o Círculo Militar, o Bar Restaurante e Boite Praia Vermelha, que anunciava possuir ar condicionado e exigia traje a rigor aos sábados. Anos depois, o empresário da noite Carlos Machado arrendou o local para montagem de grandes espetáculos, trocando o nome da boate para Casablanca.

O famoso Grill do Cassino da Urca.

Um Free ticket para o Grill Room e Cassino

Esse ticket não era para qualquer um mesmo! "Splendid dinner-dances every night in the Grill Room" e ainda "floor-shows offered to select public"... Podre de chic, não?!

Ao mesmo tempo em que a Praia Vermelha era um reduto de diversões noturnas nos anos 50, na casa construída sobre os restos da muralha do forte levantado no século XVIII, o prédio do Cassino da Urca, voltou a ser ocupado. Dessa vez pela maior novidade em comunicações lançada no Brasil em 1950: a televisão. Em 1952, a TV Tupi, canal 6, dos Diários e Emissoras Associados, transferiu seus estúdios do Centro da cidade para a Urca. A Tupi descaracterizou o prédio, tapou as janelas com tijolos e construiu um outro andar. A rede Tupi saiu do ar, suas portas foram fechadas e sua sede lacrada,e assim permaneceu...por mais de 26 anos.


Assis Chateaubriand, magnata das comunicações no Brasil entre o final dos anos 1930 e início dos anos 1960, dono dos Diários Associados, o maior conglomerado de midia da America Latina.


A TV Tupi mudou-se para o prédio do antigo Cassino da Urca que, em 1950, ainda estava em boas condições.

J. Silvestre em O Céu é o Limite

Flávio Cavalcanti
No prédio do hotel-cassino, a Tupi realizou adaptações e no antigo palco de espetáculos, realizou programas musicais, como o famoso Espetáculos Tonelux. O auditório sediou programas como A–E–I–O–URCA, O Céu é o Limite de J. Silvestre, ou os de calouros, animados por Ari Barroso ou Flávio Cavalcanti. Finalmente, em julho/1980, a TV Tupi, que já agonizava mergulhada em dívidas e má administração, foi tirada do ar por ordem do governo federal que cassou a concessão. Desde então, o prédio está abandonado.

Bem, caríssimos leitores, vou dar uma pausa na nossa história para que vocês descansem suas mentes e corações para amanhã, quando contarei a parte mais moderna e curiosa da história, pois, como eu disse, tudo começou quando Estácio de Sá, em janeiro de 1567, expulsou definitivamente os franceses da Mui Leal e Heróica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

 

2 comentários:

  1. Muito boa a pesquisa e a seleção de fotos, parabéns. Estou pesquisando sobre a vinda do Lindy Hop, uma dança americana, para o Brasil, há 70 anos, cuja porta de entrada foi pelo Cassino da Urca, em show de dançarinos americanos, em 1941.
    Sds,
    Leonor Costa
    PS: Nas minhas pesquisas notei que trechos inteiros de seu texto foram reproduzidos em textos de outros autores de blogs/sites (ou vice-e-versa), sem os devidos créditos.
    Editora do Jornal Falando de Dança
    www jornalfalandodedanca com br

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  2. Olá, Leonor. Obrigada pela visita ao blog De Tudo Um Pouco. Agradeço o elogio sobre minha pesquisa.

    Quanto a textos meus constarem em outros blogs e/ou sites, ao contrário de me incomodar, são para mim o termômetro de que o que escrevi valeu à pena. Esta é apenas minha opinião, pois ao fazer este blog, não tive (e continuo não tendo) a enor pretensão em relação à direito meu sobre nada. Espero que a internet seja, cada vez mais, uma grande fonte de universalização da informação. Não tenho copy-right de nada do que escrevo ou do pouco do que eu mesma fotografo.

    Nas minhas pesquisas, a maioria das informações vêm da Wikipedia, que é de domínio público. Quando cito parte de texto de algum blog ou site, costumo dar o crédito devido.

    Gostaria de lembrar-lhe, ainda, que essa é a 1ª parte de um post bem grandinho que fiz sobre a briga entre a Urca e o IED. Portanto, sugiro que dê uma lidinha na parte II, post seguinte a este.

    Parabéns por estar fazendo uma pesquisa que imagino desafiadora. Nunca ouvi falar na dança americana Lindy Hop, pelo menos não com esse nome.

    Abraços,
    Eliane Bonotto

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Tô só de olho em você...
Já ia sair de fininho sem deixar um comentário, né?!
Eu gosto de saber sua opinião sobre o que escrevo.
Não tem de ser só elogio... Quero sua opinião de verdade!