sábado, 23 de abril de 2011

Livros impróprios para crianças

Tudo aconteceu no final de março na Escola Municipal Benedito Ottoni, no Maracanã, Rio de Janeiro. A mãe de um aluno do 6º ano ficou revoltada com o fato de um livro, que fala sobre sexo, drogas e prostituição e é recheado de palavrões, ter sido dado a seu filho, uma criança de 11 anos, na sala de leitura. O estudante fez uma pergunta à mãe sobre sexo anal, depois de ter lido trecho do livro em que um traficante revela o seu medo de ser espancado por desviar dinheiro que seria destinado ao pagamento de propina a policiais. A mãe do estudante escreveu carta aos dirigentes da escola, pedindo que o livro fosse retirado da biblioteca. Mas a direção só agiu quando o assunto parou na delegacia. Esse é o trecho de uma reportagem publicada no Jornal Extra Online de ontem, 23 de abril.

Caça às Bruxas
Eu não começo pela escola. Ela tem, sim, sua parcela de culpa nisso tudo. É óbvio. Mas antes disso, muito antes disso, há toda uma cadeia de inversão de valores reinando país afora. Quando eu digo que, hoje em dia, qualquer um escreve livro e grava CD, não é à toa. Eu começo pela autora do livro. Então, quer dizer que a senhora Paula Mastroberti, a escritora, estava sem inspiração para escrever um livro, caminhou até sua estante, pegou a obra de ninguém menos que Miguel de Cervantes e, simplesmente, destruiu-a? E mais do que isso, teve a cara de pau de dizer aos jornais que o livro é uma “recriação” (seria uma dessas famigeradas releituras?) feita a partir da obra de Miguel de Cervantes y Saavedra?

A autora do livro Paula Mastroberti
 

Vou um pouco mais a frente, quer dizer que a Editora Rocco, leu o original deste “lixo”, dotado de conteúdo inconveniente, que não agrega nada a ninguém, e publicou-o? Que vergonha, Editora Rocco!
E vamos colocar mais lenha ainda na fogeira. O lixo... Digo, livro “Heroísmo de Quixote”, ficou em segundo lugar na categoria melhor livro juvenil do Prêmio Jabuti em 2006? Que diacho de júri avaliou esse prêmio?
Antes de a “bomba” estourar nas mãos do aluno da Escola Municipal Benedito Ottoni e do delegado da 18ª DP do Rio de Janeiro, foi a sociedade brasileira (não foi o povão, não), que preparou todo um sortilégio de atitudes que expõem, em última instância, as nossas crianças à essa total inversão de valores que temos vivido nas últimas décadas. Foi exatamente essa mesma sociedade, a que a mídia chama de “intelectual” e “formadora de opinião”, que deu partida no motorzinho da fábrica de perda de valores morais, de respeito ao próximo, de sexualização precoce da juventude, do consumir por consumir e por aí vai.


E quem são esses intelectuais? No dicionário Aurélio, intelecto é sinônimo de inteligência. Penso que na prática não funcione bem assim. Não posso falar em relação à “escritora” gaúcha, pois desconheço o habitat dos intelectuais no RS. Mas posso falar sobre os intelectuais cariocas. Seu habitat são as praias da zona sul, onde fazem suas passeatas dominicais pela paz, onde depois vão fumar seus baseados, falar mal de qualquer coisa que possa ser chamada “de direita”, até porque aquele modismo rançoso de ser de esquerda, do início dos anos 60, ainda persiste em pleno século XXI. À noite, algumas cervejas nos bares, de preferência pés-sujos, que eles transformam em “point” no Leblon. Sempre me perguntei do quê vivem tantos intelectuais cariocas, já que não têm empregos (coisa do demo do capitalismo). Lá pelos anos 70, sinceramente, eu não sei (ainda tenho de me informar), mas atualmente, a maioria esmagadora desse espécime vive de fundações e ONGs, a última moda em termos de ganhar dinheiro fácil. E o pior, rigorosamente dentro da lei. Enfim, esse é o perfil de um “intelectual” carioca. O problema dos intelectuais de plantão (aqueles que dão suas opiniões de “especilistas” na TV Globo e na GloboNews) em vários segmentos, vêm se tornando um caso sério e que precisa ser olhado mais de perto. Exemplo disso é a opinião dos pedagogos sobre a retirada do livro da discórdia das estantes das escolas. As opiniões estão divididas, há educadoras que criticam a postura da escola ao retirar o livro das bibliotecas.


A pedagoga Leda Farguito, que trabalha com crianças com dificuldades de aprendizagem, considera a linguagem do livro inadequada para crianças de 11 anos. Por outro lado, defende o uso da obra em sala de aula, desde que o trabalho seja orientado. “Eu não usaria esse tipo de livro, porque a linguagem não está adequada à idade e ao conhecimento de mundo do aluno. Mas não criticaria se um professor apresentasse o livro com uma intenção. Quando um professor distribui um livro sem saber do que se trata, não está agindo de forma pedagógica. Isso é grave. A educação precisa ser intencional.”
Ontem, 22/04, no seu blog Papo de Professor, a Profª Maria do Socorro sentenciou: ”A questão da intencionalidade pedagógica na sala de leitura precisa ser (re)discutida nas escolas... Colocar livros nas mãos dos alunos não garante o hábito de ler.” Apoiada professora !

Voltando ao assunto do “livro-bomba”, no ano de 2005, o mesmo em que o livro quase ganhou o prêmio Jabuti, foi doado pela Editora Rocco à Secretaria Municipal de Educação. Esta mesma Secretaria reconheceu que o livro foi colocado à disposição dos alunos por engano e que, ao tomar conhecimento do conteúdo do livro, mandou retirá-lo imediatamente dos acervos das escolas, uma vez que a obra possui conteúdo impróprio para os alunos do Ensino Fundamental. Como assim, meus Deuses?! Tudo começa lá de trás mesmo. A própria Secretaria não lê os livros que disponibiliza para as escolas sob sua responsabilidade. Então, a professora responsável pela distribuição dos livros na escola em questão, admitiu que não conhecia a obra. A professora disse que, ao ler a orelha do livro, não imaginou que o conteúdo fosse impróprio.
Ai, ai, ai, senhores professores, é assim que a classe quer ser valorizada? Os salários dos professores brasileiros são indecorosos, mas isso não justifica, dentro de uma escola, apenas uma professora ser a responsável por analisar os livros, e ainda se dar ao luxo de apenas ler a orelha do livro. O mais interessante nesta situação é o fato de um aluno ter acesso a um dos exemplares da biblioteca da escola e levar o livro para ler em casa, e é o que todos desejamos para todas as crianças brasileiras, que elas leiam cada vez mais. Nesse caso, como o aluno parece ter uma boa estrutura familiar, perguntou a sua mãe sobre suas dúvidas. Fico imaginando se ele tivesse “guardado” as perguntas para sua professora. Como ela reagiria? O que poderia ter acontecido? Obviamente, não estaríamos todos aqui discutindo o tema, pois o caso teria sido amortecido e abafado entre as paredes da escola. Pior ainda, seria se o menino guardasse a dúvida para si e nada perguntasse a ninguém, ou perguntasse a algum coleguinha que poderia saber tanto quanto ele. E teríamos, então, duas crianças de 11 anos que tiveram acesso ao tal conteúdo inadequado. E depois ainda dizem que o culpado é ele, Monteiro Lobato!

Só Monteiro Lobato salva!

Na minha opinião, a história toda poderia ter o título de “Heroísmo de Uma Mãe”. Achei fantástica a atitude desta mãe ao ir até a delegacia de polícia para registrar uma queixa contra a escola. Eu mesma não teria pensado nisso. Logo eu que vivo dizendo que precisamos exercer nossa cidadania. Pois esta mãe nos deu um baita exemplo do que seja exercer a cidadania, verdadeiramente. Gostei mais ainda de saber que o acontecido foi numa escola pública. Não foi uma mãe indignada porque paga uma mensalidade caríssima no colégio particular de seu filho. Digo, e repito, só assim vamos conseguir, um dia, mudar a sociedade para melhor. É cada um começando a mudar por dentro de si mesmo. E expressando a mudança através de uma atitude irrepreensível, como a desta mãe. Ela foi primorosa. Fez barba, cabelo e bigode. Isso porque com sua atitude fez não apenas as pessoas, mas as instituições de ensino, pararem para pensar. Mesmo que tudo volte ao que era antes. Ela fez a parte dela. Ahh... Se todas as mães fossem afetuosamente ousadas assim!

5 comentários:

  1. Aiaiai... escrevi um enorme comentário e o blog deu erro... depois reescrevo de novo, ok!

    Um grande abraço para você, parabéns por essa ótima postagem! Feliz Páscoa a você e sua família!

    Adriano

    ResponderExcluir
  2. tu estás bem atrasadinha hein, como é mesmo teu nome? Eliane Bonotto! Citas Chaplin que todos sabem gostava de uma atrizes beeeemmm novinhas. Quer a Belle Epóque de volta onde afloravam quadros de mulheres nuas e vem com a mais falsa moral que já conheci censurar um livro porque uma mãe que deve ser da mesma época jurássica que você não soube ler? Teus argumentos aqui são fraquíssimos... sugiro ouvir a explicação da boca da própria autora, mas explicação de que?
    http://mediacenter.clicrbs.com.br/templates/player.aspx?uf=1&contentID=183188&channel=49

    ResponderExcluir
  3. Eliane, e você, leu o livro? Ou é daquele time do "não vi, mas não gostei"???

    ResponderExcluir
  4. Capaz, Prof. Carlos! Cito Chaplin porque ele foi um gênio, quero a Belle Époque de volta porque foi uma época em que as artes e a sociedade européia se desenvolveram e se modernizaram sem perder o bom gosto. Mulheres nuas em quadros maravilhosos não são inerentes à Belle Époque, que o digam os Renascentistas. Botticelli, Ingrès e outros gênios da pintura, deixaram quadros maravilhosos nos quais "afloravam mulheres nuas" (palavras suas).
    Não consegui assistir à entrevista da autora do livro. Só consigo ir até a apresentação dela e o vídeo trava. Continuarei tentando, pois sou curiosa e quero, sim, ouvir a outra parte com mais vagar.

    O "atrasadinha", a "falsa moral" são apenas e tão somente sua opinião expressa num comentário. Disso eu gosto, professor, liberdade de expressão, o que para o senhor parecerá um paradoxo, já que leu apenas um dos meus posts e já sabe tanto sobre mim a ponto de fazer juízo de valor.

    Eu não disse no meu post que o livro não deva ser lido. Eu disse que este livro não deve ser lido por uma criança de 11 anos. O conteúdo é sim, totalmente inadequado para esta faixa etária. Tudo na vida tem seu tempo.

    Pessoalmente, eu não leria o livro da Sra. Mastroberti em nenhuma idade da minha vida, porque existe literatura verdadeiramente boa a ser apreciada. A poesia erótica de Hilda Hilst dá de 10 x 0 na brochura da Sra. Mastroberti, pois não é apelativa, tampouco vulgar.

    Finalizando, deixo aqui um trecho que acho super legal de uma música da Lily Allen:
    "You say you think we need to go to war
    Well, you're already in one
    Cause it's people like you
    that need to get slew
    No one wants your opinion."

    Anyway, be sure, I do.

    Obrigada pelo tempo que dispensou em ler meu blog. Costumo dizer que as ideais quando debatidas, amadurecem, ficando assim, saborosas.

    Abraços,
    Eliane Bonotto

    ResponderExcluir
  5. Caro Anônimo, não deixarei de respondê-lo também. Todos os meus leitores sempre têm uma resposta minha. Eu leio todos os comentários no meu blog e absolutamente todos têm a mesma importância.

    Respondendo sua pergunta, NÃO. Não li o livro. Mesmo assim, não me rotulo como fazendo parte de time nenhum, principalmente do "não vi, mas não gostei."

    Não li o livro pelo morivo que mencionei na resposta acima, ao Prof. Carlos.
    "Pessoalmente, eu não leria o livro da Sra. Mastroberti em nenhuma idade da minha vida, porque existe literatura verdadeiramente boa a ser apreciada. A poesia erótica de Hilda Hilst dá de 10 x 0 na brochura da Sra. Mastroberti, pois não é apelativa, tampouco vulgar."

    Agradeço também a você ter dispensado seu tempo em ler meu post. Não escrevo ara ter uma platéia. Escrevo para expressar minhas ideias, minha visão de mundo. E elas mudarão com o passar do tempo. Se não mudarem, é mal sinal. Sinal de que não evoluí.

    Abraços,
    Eliane Bonotto

    ResponderExcluir

Tô só de olho em você...
Já ia sair de fininho sem deixar um comentário, né?!
Eu gosto de saber sua opinião sobre o que escrevo.
Não tem de ser só elogio... Quero sua opinião de verdade!